segunda-feira, 17 de março de 2014

dezessete de março de dois mil e quatorze

UMA ORQUESTRA - por Roberta Martins, amiga e, também, gauche estudante de medicina.

A endócrino e a hemato foram embora e me deixaram com um vazio aqui dentro. Num piscar de olhos, a simulação avançada ganhou vez. Era quatro da tarde e esperávamos pelo professor. Angustiados, curiosos. Entraríamos pela primeira vez, no laboratório mais caro e protegido da faculdade. De repente, lá vem ele. O mestre. No seu pescoço está amarrada uma capa invisível, digna de quem salva vidas. Pobre de mim, ultimamente, não ando conseguindo salvar nem a mim mesma desse caos.

Entramos então pro laboratório. As equipes foram divididas. E, sem nem deixar meu organismo se acostumar com a simulação, vi que estávamos a sós com o boneco, que, num mero descuido parece gente, e se transforma em paciente. O nosso paciente que, teríamos, que salvar.

O comando foi dado. O paciente, ou boneco como queira, teve uma parada cardíaca. Um minuto e meio, e nós percorremos aquele laboratório feito baratas tontas. Na parede perfeitamente espelhada, era possível observar o nosso pleno desespero. O boneco era gente. O boneco era paciente. O frio siberiano congelava as minhas mãos. No meio ao tumulto, queria me encolher dentro do meu jaleco.

Na rapidez dos acontecimentos, o conhecimento foge. Como o professor frisa toda aula: nervosismo traduz desconhecimento. Ali, naquela simulação do completo caos, meu coração batia numa velocidade frenética. Minhas bochechas, nada pequenas, estavam tão vermelhas que meu rosto ardia.

Era numa orquestra desordenada, descompassada, desalinhada, mas não deixava de ser uma orquestra. A orquestra do desespero, da ansiedade. Entre um ciclo e outro de compressões, ventilações e desfibrilação, só queríamos que o senhor boneco respondesse... Uma voz ecoou do microfone solitário preso ao teto. Vamos discutir -- a voz disse pragmática. Obedecemos. Lá dentro, um minuto é um segundo. O ambiente é frio, mas seu organismo ferve. Agilidade, crianças, agilidade.

O senhor boneco não respondeu. Fui pra casa angustiada. Ele teria sobrevivido? A pergunta martelou. Em casa, afogada no caos da clínica e nos piolhos que jogam minha nota lá em baixo, achei engraçado me preocupar com a vivacidade de um boneco. Tive saudade da época em que brincar de boneca não tinha assim tanta adrenalina... Amanhã tem mais. Certamente, o senhor boneco terá um dispneia. O script acaba aí. O resto depende do maestro e dos instrumentistas. São eles que definem a qualidade da orquestra.

Roberta Martins

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