Cá estou, olhando essas passagens que se movem e se distorcem enquanto o carro corre para o lugar que pensa ser o caminho certo. Converso com as meninas e dou algumas risadas, mas passo a maior parte do tempo segurando meu choro. Lágrimas contidas numa barreira fina chamada olho. Olho que só queria permanecer fechado. Ah, se eu pudesse, enfim me desligar daqui. Mas não é tempo pra dormir e eu preciso participar da conversa. Reclamam de quem não interagem, mas se decepcionam quando a interagem demais. A conversa flui entre elas e aproveito para pensar na semana. Me pego sofrendo cada passo e gozando pequenas vitórias tão minhas. As vezes sorrio como quem participasse da conversa, mas estou apenas disfarçando minha tristeza. Meu peito aperta, treme em batidas desproporcionais e me faz existir em pulsações. Uma hora sou sorriso automático, noutra estou na contra-mão. Não sou mais constante, disparo choros e dores. Soluço. As coisas quando não estão tendem a nos matar. E nada está. Nada é. Não sei mais pra que canto me arrependo definhada, pra que lugar peço perdão. Preciso estancar esse jorro de lágrimas, mas estou ocupada fingindo participar do mundo. Volto ao nada. Lá onde falam de algum assunto novo. Deixo minha opinião e faço força pra não pensar mais em mim. Minha situação é tão ferida que posso me contaminar, mesmo assim preciso sobreviver a realidade. Ignorar minhas feridas que são capazes de me engolir. Ser mais uma pessoa banal. Chego em casa. Meu quarto sabe dos meus segredos. De que quando acaba mais uma sexta, penso como quem não esperava: sobrevivi. E disparo a chorar outras preces, soluçar poesias, respirar de forma doce e delgada na vontade de fazer meu peito entrar num ritmo e não mais tremer. Choro como um vômito acumulado, que contive ao longo da semana para ser mais normal e aceita. Respiro e choro um disparo de angústia, porque a saudade e a oferta são paradoxos simultâneos. Apenas soluços dissipando o desespero. Apenas lágrimas derretendo a dor. Mais uma sexta que fecha. E eu sobrevivi mais uma dessas semanas, irrespiravelmente, triste. Indiscutivelmente transtornadora. E a saudade.
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