"It's better to burn out than to fade away"
não suporto a morte e vou indo nesse curso goela à baixo. e foi assim que passei o dia na uti com aquele doutor carioca de educação paulista. poderia ter sido um dia mágico, se não fosse os pacientes moribundos.
uti, lugar para se viver. morrer. esperar com máquinas entubadas, exames dolorosos, sem plena consciência, um boneco que respira. chorei e senti dor quando vi pela primeira vez uma acesso venoso central. aquela agulha violenta na jugular tão sensível do senhor que sofria sem ar. ele se contorcia com os olhos arregalados para o teto. talvez pensasse ser a morte. talvez pensasse ser a salvação. talvez nem sequer pensasse. era apenas uma angústia dolorosa e inacabável.
conversei com as paredes, quando queria falar com aquele paciente e seu talámo encharcado de sangue, comprometido. ele já era, mas estava lá. respirava com o desespero de quem sonhava um mau presságio, de vez em quando abria a boca e lhe saía uma baba nova. eu conversei com ele. disse que eu não gostava de vê-lo assim e se ele pudesse me escutar, apenas abrisse seus olhos. mas essas coisas ficam para a ficção, ele não respondeu e quem me escutava eram apenas paredes.
fui na mulher que tinha morrido. era uma zumbi retornando a vida. numa transição que dessa vez nem ficção ousou fazer. ela teve diagnóstico de morte cerebral quando chegou lá, mas o doutor peculiar amava o que fazia e fez direito. agora ela estava quase retornando a si mesma, com o quadro estabilizado e poucas sequelas. falei pra ela que estava indignada em como ela não sentia frio naquela ala, em frente o ar condicionado em palmas que sempre é 17°C. ela não respondeu, mas nenhum pelo de sua pele estava eriçado e tive pra mim isso como resposta. o doutor incrível me apresentou cada paciente pelo nome, idade e procedência. ele não referia como quadros clínicos, diagnósticos, sintomas soltos. ele era tão humano quanto organizado. e eu tive vergonha de ser essa gauche estudante de medicina, devagando na poesia incrivelmente fúnebre.
conversei com as paredes, quando queria falar com aquele paciente e seu talámo encharcado de sangue, comprometido. ele já era, mas estava lá. respirava com o desespero de quem sonhava um mau presságio, de vez em quando abria a boca e lhe saía uma baba nova. eu conversei com ele. disse que eu não gostava de vê-lo assim e se ele pudesse me escutar, apenas abrisse seus olhos. mas essas coisas ficam para a ficção, ele não respondeu e quem me escutava eram apenas paredes.
fui na mulher que tinha morrido. era uma zumbi retornando a vida. numa transição que dessa vez nem ficção ousou fazer. ela teve diagnóstico de morte cerebral quando chegou lá, mas o doutor peculiar amava o que fazia e fez direito. agora ela estava quase retornando a si mesma, com o quadro estabilizado e poucas sequelas. falei pra ela que estava indignada em como ela não sentia frio naquela ala, em frente o ar condicionado em palmas que sempre é 17°C. ela não respondeu, mas nenhum pelo de sua pele estava eriçado e tive pra mim isso como resposta. o doutor incrível me apresentou cada paciente pelo nome, idade e procedência. ele não referia como quadros clínicos, diagnósticos, sintomas soltos. ele era tão humano quanto organizado. e eu tive vergonha de ser essa gauche estudante de medicina, devagando na poesia incrivelmente fúnebre.
quando fomos no paciente preferido, que havia perdido um pedaço de si, sua perna, fiquei miúda. do tamanho da minha inteligência. ele conversava tanto comigo e eu não entendia uma palavra. me esforçava nas respostas soltas, uhum, nossa, hm. apertava meus ouvidos por dentro para que eu pudesse entender tão preciosas palavras de quem sabe sim o que é sofrer. tempo depois e sozinhos ele me falou o nome de suas filhas. dizia também o curso que cada uma formou, num tom sereno e vagaroso, quando finalmente compreendia. mas logo começou a balbuciar algumas coisas pra parede e eu sem entender perguntava, o que foi, sêu R.? o quê foi? ele falou da véa que estava torrando sua paciência e não calava a boca, quando éramos apenas nós naquela sala. ele também fala com as paredes, pensei.
o doutor compaixão disse que poderia sim ter uma mulher lá, oras. eis um médico tão compreensivo que preferia a humildade ao invés de taxar seco: delírio. depois os familiares chegaram pra visita. e seus rostos, haviam rugas de expressão pela força de não de deixar cair lágrimas. concentrados, olhavam fixo seus pais, mães, tias, namorados, os pacientes entubados e presos a seus leitos pelos acessos venosos. alguns se despediam aos poucos de alguém que estava indo devagar. outros, se reconciliavam com suas religiões pelo milagre da vida. e eu estava apenas nada. secou-se meu ser, mas eu estava completamente cheia até o topo daquele dia. dos aprendizados. informações. do mundo novo, mundo morto. quero ser médica, mas as pessoas morrem.
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