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| Diego Rivera, Portrait of Two Women, 1914. |
avulsas ao tempo e sem poupar o intelecto. estudávamos vorazmente cada palavra de neuroanato. Fazíamos analogias idiotas para decorar aqueles nomes idiotas. Divagávamos às vezes numa dúvida que rompia a concentração e nos levava à confissões, quebras de sigilos, segredos expulsos. Era uma vontade de falar. Era uma vontade de ser. De quando em quando, ela levantava da cadeira e começa a dançar cantando uma músicas ridículas da matéria decorada. " O giro pré central é a área motora primária, lalalalaialalaia. E o pós central é a área sensitiva primária, ouuuouuuuouu". Eu ria. Do ridículo, óbvio. Estávamos sujas de sono e cansaço. Nossos rostos manchados de um ano inteiro nas costas. Uma opressão absurda de dezembro. Estudávamos juntas para sanar o desespero. Ela estava moribunda por causas dos dissabores da faculdades. Eu estava mutilada porque havia explodido. Confessamos medos e revoltas. Xingamos o vento, nos questionamos do mundo. Tudo tão superficial e de plástico. Eu fui sua força e ela foi meu sustento. Líamos repetidamente cada palavra grotesca do sistema nervoso. Estávamos esgotando nossa área de Broca e gaguejávamos quando explicávamos o insucesso do aprendizado. Eu dizia pra ela que seu hipocampo era atrofiado por isso ela esquecia tudo. Ela falava que todo meu córtex pré-frontal era podre e por isso meu débil comportamento. Ríamos fazendo jus ao sistema límbico.
A chuva não ajudava lá fora e nem a vontade de chorar que engolíamos. Mas fomos. Só o pó e feiura, estudamos, com ardor naquela noite chuventa de pirraça, neuroanato. Neuroanato!
Noutro dia pós prova e pós tudo, dei um abraço de despedida pras férias.Tudo esvaziou e não sabia mais nada do estudado, só que o septo transverso é um dos responsáveis do orgasmo. Foi perturbador e, enfim, bonito. Nos entregamos ao desespero de mãos dadas, porque duas não podiam caber no mesmo buraco.

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