sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

quarto dia


quarto dia
Posted on 1 Day Ago by luna

caos e uma pilha de prontuários na minha cabeça. É o que tenho sonhado no últimos quatro dias. É o que tenho sido, nesse tempo de ser niguém. Ele me disse: escreva. Eu respondi: mais? Mal ele sabia que isso foi um abraço. Que essa foi a frase mais linda para se começar o ano.

E começo com impressões malditas. E começo com impressões benditas. A praga que roguei e pegou. O peso da consciência por estar leve. As pessoas que conheci. Os bebês e seus abdomes distendidos, o ortonali negativo e o malígno desejo de um dia achar positivo. Os BTF e que porra é essa de HGT. Eu não gosto de aprender a prescrever hidratação pros neonatos. E tenho medo de calcular algum Ápgar errado. Vai que o Capurro mente. Vai que faço ligadura em coto umbilical errada. Quero nem pensar em deixar uma PCR alta batida. O neném morreu de choque séptico quando ele tinha 48h de vida. E o pai esmurrava a porta da UTI,tão moreno e bonito e corrompido por uma pausa de ódio. A mãe estática, como todas as mães que perdem seus filhos. Estátuas do mundo, enfeites sem vida.

Eu sei que entendo porque os bebês quentinhos choram quando encosto meu esteto gelado em seus tórax. Entendo porque todas as mães querem ir embora daqueles quartos de piso antigo e cheio de outras mães. Entendo pouco.

Não entendo por quê não tem álcool em gel nos corredores do hospital. E por quê cargas d’água acabou penicilina desde julho do ano passado. Não entendo por quê aquela enfermeira sem paciência vive com os olhos vermelho de choro. E nem por quê aquela residente grita tanto. Não entendo – e não entendo mais ainda- por quê uma parceria se derrete em disputa individual, mesmo vindo daquela pessoa individualista de sempre.

Mas eu ando comendo muito.  E escrevendo mais ainda. Preciso comprar uma boa caneta e começar a correr no Ipiranga. Preciso de noites de sono e muitas outras de sexo. Preciso de todos os dias conversar com alguma pessoa preciosa da minha vida, contar desesperadamente meu dia. E ao mesmo tempo, não conseguir expressar nada.

Era pra ser poético. Era pra ser bonito. Mas eu não consigo escrever, doutor. Sei que palavras podem ser mais poderosas que abraços. E abraços são capazes de matar as angústias por asfixia. Ou deixar sequelas por hipóxia. De qualquer jeito, nunca oxigenar uma tristeza. Permito ver sua morte acontecer nas palavras que abraçam.

Kemmañ

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